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:: GALERIA DE HERÓIS
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COMANDANTE EMÍLIO
BONFANTE DEMARIA
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"Sou
um velho lobo do mar que não sabe contar histórias,
mas
que tem algumas coisas para transmitir às novas gerações"
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Emílio
Bonfante Demaria nasceu em Florianópolis, Santa Catarina,
em 16 de julho de 1923. Filho do funcionário público
municipal Emanuel Bonfante Demaria e da dona de casa Bonifácia
Gonçalves Demaria, transferiu-se, ainda menino, em companhia
dos pais e dos cinco irmãos, para Itajaí, cidade portuária
catarinense, onde viveu até os 17 anos.
Ali,
o jovem Emílio iniciou sua formação profissional
e ideológica e deu partida a uma trajetória marcada
pelo exemplo de coragem e integridade e por realizações
que são, até hoje, consideradas emblemáticas
para o sindicalismo brasileiro.
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A
atração de Emílio pela vida marítima
começou cedo ("Talvez pelo fato de eu ter nascido numa ilha",
costumava dizer). Aos 17 anos, participou de um concurso promovido
por empresas de navegação, foi aprovado e tornou-se
praticante de piloto. Mudou-se, depois disso, para o Rio de Janeiro,
com o propósito de prestar exame na Escola de Marinha Mercante
e, assim, realizar o seu maior sonho até então: trabalhar
como segundo piloto.
O
ano era 1941. Ainda como praticante de piloto, foi chamado para
embarcar no navio "São Paulo", de propriedade da Companhia
Comércio de Navegação. A viagem, iniciada no
Rio e que tinha como destino o Nordeste, terminou antes da hora
para Emílio. Encerrou-se quando o comandante do "São
Paulo" recebeu a ordem para desembarcá-lo imediatamente.
O motivo: no exame médico a que se submetera no Instituto
de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos, fora constatada
uma deficiência circulatória - "veia aorta alongada
no sentido longitudinal" -, a qual o fazia inapto para vida marítima.
Emílio perguntou-se se aquele seria o fim de seu sonho.
No
Rio, foi se tratar da doença. "Você quer mesmo ser
oficial de náutica?", perguntou o médico, impressionado
com a obstinação demonstrada pelo jovem marítimo.
"Sim", foi a resposta de Emílio. "Então vou te ajudar",
prometeu o Dr. Joubert. Prometeu e cumpriu.
De
volta à casa dos pais, em Itajaí, Emílio seguiu
com rigor as orientações do médico - de quem
ganhou os remédios necessários ao tratamento - e curou-se.
Certo dia, recebeu o convite de um colega baseado no Porto de São
Francisco do Sul para substituí-lo como praticante de piloto.
Emílio aceitou e, desta forma, conseguiu completar seu estágio.
Prestou exames para segundo piloto, na Escola de Marinha Mercante,
no Rio. Foi aprovado, finalmente. Seu primeiro embarque, na nova
função, ocorreu em um navio da Companhia Costeira.
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Daí
em diante, Emílio entregou-se com paixão à
vida no mar. Não fez isso, entretanto, de forma individualista.
Ao contrário. Com as lembranças, muito vivas, das
primeiras experiências políticas, em Itajaí
e no Rio, onde teve contato com companheiros atentos à quastões
sociais, grande parte deles ligados ao Partido Comunista, dedicou-se,
desde cedo, a contribuir para a educação e o progresso
profissional dos colegas marítimos.
Chegou,
porém, o dia em que o Brasil declarou guerra à Alemanha
e seus aliados, em virtude do torpedeamento de navios brasileiros
no Atlântico. A União Nacional dos Estudantes desempenhou
importante papel nessa reivindicação. O momento era
de ebulição. Os ânimos do país (e do
mundo) estavam exaltados, como não poderia deixar de ser.
O diálogo com o Governo federal teve momentos de tensão
e violência. Foi nesse momento da vida nacional que Emílio
"sentiu patas de cavalo pela primeira vez".
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Emílio
atuou em comboios na Segunda Guerra Mundial, durante a qual 35 navios
da Marinha Mercante foram torpedeados. No total, 469 tripulantes
e 502 passageiros foram mortos. A Marinha Mercante teve mais perdas
do que todas as forças armadas somadas.
Terminada
a guerra, Emílio, ex-combatente condecorado com a Medalha
de Três Estrelas, do Mérito de Guerra Naval, deixou
Paranaguá, no Paraná, onde estava baseado, e transferiu-se
para o Rio. Foi quando começou a travar outros tipos de batalha,
que iriam se apresentar muitas vezes em sua vida dali para a frente.
Preocupado com a situação salarial dos companheiros
da pequena cabotagem, foi um dos líderes da organização,
no Cais 18, de uma comissão destinada a negociar com as empresas
melhores salários. Ao viver intensamente esse episódio,
Emílio convenceu-se de que precisava participar de maneira
mais ativa e constante da atividade sindical. Fez isso, desde então,
com toda a energia e bravura que lhe eram características.
A
partir disso, Emílio protagonizou uma atuação
sindical que se tornou referência no Brasil. Foi presidente
do Comando Geral da histórica - e vitoriosa - Greve Nacional
dos Cem Mil Marítimos, em 1953, na qual foi conquistada a
equiparação salarial entre as diferentes categorias
de trabalhadores do setor. A Marinha Mercante parou totalmente.
A repressão da polícia e das forças armadas
foi extremamente violenta. Emílio foi preso e torturado.
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Eleito
presidente da Federação Nacional dos Marítimos
e Classes Anexas, não foi empossado pelo Ministério
do Trabalho. Membro da Associação Brasileira de Imprensa,
fundou, em 1953, o jornal sindical Orla Marítima e
foi seu diretor-presidente até o jornal ser interditado pelo
golpe militar de 1964. Eleito presidente do Sindicato Nacional dos
Oficiais de Náutica da Marinha Mercante, em 1954, novamente
não conseguiu ser empossado pelo Ministério do Trabalho.
Como candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, foi preso,
durante comício em Campos, e não se elegeu porque
o Tribunal Regional Eleitoral cassou o registro de sua candidatura
um dia antes da eleição.
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Sem
jamais abrir mão de suas convicções e de
seus ideais (porque, como costumava dizer, "Prefiro as lágrimas
da derrota à vergonha de não ter lutado"), Emílio
foi em frente e fundou o Pacto de Unidade e Ação
(PUA) dos Marítimos, Portuários, Estivadores e Ferroviários.
Destacou-se na Luta de Emancipação Nacional de Defesa
da Marinha Mercante Brasileira, de Defesa do Petróleo e
de Defesa dos Minérios.
Pela
Federação Nacional dos Marítimos, foi eleito
assessor sindical do Presidente da República, João
Goulart, para Assuntos da Marinha Mercante. Mais uma vez, contudo,
foi impedido de tomar posse pelo governo militar, em 1964. Em
abril daquele ano, foi preso e novamente torturado.
Ainda
em 1964, foi demitido da Companhia Nacional de Navegação
Costeira, quando, como capitão de longo curso, comandava
o navio Rio Iguaçu. Teve seus direitos políticos
cassados pelo Ato Institucional nº 1. Em 1969, foi condenado a
quatro anos de prisão, no Rio de Janeiro. Em razão
disso, exilou-se na Rússia, de 1969 a 1971. Durante esse
período, vivendo em Moscou, estudou economia política,
história do movimento operário, teoria e tática
do movimento operário e psicologia social. De volta ao
Brasil, foi preso e torturado, juntamente com sua esposa, em São
Paulo. Condenado a mais quatro anos de prisão, em 1976,
foi finalmente anistiado em 1978.
"Amo
a vida. É o maior bem que existe. O objetivo deve ser sempre
melhorar a vida, para que as pessoas possam melhor usufruir desse
bem", não cansava de repetir o comandante Emílio
Bonfante Demaria.
No
dia 29 de outubro de 1999, pouco mais de 10 meses depois da morte
de Emílio, ocorrida no dia 18 de fevereiro, era inaugurada
a nova sede do Sindicato Nacional dos Oficiais da Marinha Mercante
- SINDMAR, na Avenida Presidente Vargas, centro do Rio de Janeiro.
A
"nova casa dos oficiais da Marinha Mercante", como a chamam os
associados do SINDMAR, recebeu o nome de Comandante Emílio
Bonfante Demaria. Na solenidade de inauguração da
nova sede, a viúva de Emílio, Rosemaria Bonfante,
emocionada, descerrou a placa que homenageia o marido.
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